quarta-feira, 16 de agosto de 2006

O passageiro



A primeira vez que vi um filme de Antonioni devia ter pouco mais de dez anos. Na altura, apesar de coisa me ter passado completamente ao lado, as imagens ficaram-me na retina até que em finais de adolescência pude rever Blow Up e mergulhar de lycra, touca e óculos estranhos na piscina metafórica deste italiano. E que metáforas.

Ontem fui ver The Passenger, que durante anos esteve guardado no frigorífico pessoal de Jack Nicholson. Apesar de ser de 1975 continua bem fresquinho, como um vinho do Porto que com o tempo foi ganhando um corpinho revelador de muitas horas de ginásio.

Antonioni conta a história de David Locke, um reporter desiludido com o trabalho e a vida que investiga as guerrilhas dos desertos africanos do norte. Um dia, ao descobrir morto um homem de negócios no hotel que ambos partilham no meio de nenhures, decide assumir uma nova identidade. Locke passa a ser Robertson, a usar as suas roupas, a seguir a sua agenda, deixando para trás a sua antiga pele e tentando encontrar um novo caminho.

Locke procura a fuga ao destino real, mas é o destino imaginado que lhe vai apertando cada vez mais o cerco. You can run but you can not hide, parece ser o sussurro que se vai ouvindo por entre as paisagens imensas.

Antonioni filma de uma forma soberba, e a sequência final de mais de sete minutos num só plano é do melhor que o cinema já nos mostrou - talvez só batida pela de Robert Altman na abertura de The Player. O cinema de autor mora aqui.

1 comentário:

Paulo Hasse Paixão disse...

Não sou nenhum maluco do neo-realismo italiano, mas estou curioso quanto a esta fita. O único filme desta escola que mexeu realmente comigo foi "La Strada", do Fellini (1954 - com Anthony Quinn e Giulietta Masina). Viste? É bom à brava.
Recentemente tem dado na 2: um documentário porreiro com o Martin Scorcese a tentar convencer a malta que o cinema de Rosselini, Antonioni e Fellini sintetiza a sétima arte mais ou menos da mesma maneira que Homero resume a literatura. Eu achei piada, mas discordo do paradigma.
O próprio Rosselini não acreditava lá muito nas virtudes do neorealismo. Perguntado um dia sobre a simbologia inerente à utilização das pessoas da rua como actores e figurantes, respondeu: Lamentavelmente, a produção não tinha dinheiro para profissionais.