
A par de «O que vem à rede é peixe», onde na primeira aventura destacámos a caixinha de Pandora, inauguramos hoje um outro espaço que se irá chamar «Código D`Avintes», onde iremos dar tempo de antena a livros e escritores que agitaram os nossos neurónios e incendiaram partes do corpo que nem sequer sabíamos que existiam.
Henry Miller era conhecido por desafiar a sociedade com uma escrita contestatária e libidinosa. Livros como "Moloch" (1924), "Trópico de Câncer" (1934) ou "Trópico de Capricórnio" (1938) fizeram corar muito boa gente, mesmo aqueles que nada deviam à pureza. Teve obras censuradas na Inglaterra e nos Estados Unidos durante mais de trinta anos, recebendo largos elogios como «pornógrafo de segunda categoria» ou «egoísta de primeira».
Porém, como até os alcólicos têm o seu momento de clareza, Miller cometeu um pequeno desvio escrevendo aquela que é para nós uma das grandes pérolas da literatura. Falamos de «The Smile at the Foot of The Ladder», «O Soriso aos Pés da Escada» no sotaque lusitano. O livro conta a história do palhaço Augusto que, através de um sorriso, irá descobrir toda a beleza da vida (dito assim até parece um romance de cordel, mas não é). Como diz Miller a certa altura, «o palhaço é um poeta em acção», que se torna na própria história que desempenha no circo que é a vida. Augusto será, afinal, um dos muitos rostos de Henry Miller, e de todos eles o mais belo. Um livro fascinante e obrigatório.
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Do Epílogo:
«Embora nem sempre o tenha sabido, o palhaço exerce em mim uma atracção profunda, justamente porque está separado do mundo pelo riso. O seu riso nada tem de homérico, é um riso silencioso, o que nós chamamos um riso sem alegria. O palhaço ensina-nos a rir de nós próprios. E este nosso riso nasce das lágrimas»
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