quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O "marketing hara-kiri"



No início, e como quando num local inóspito nos perguntam o nome de uma rua - ao que respondemos: "não sou de cá, vim só ver a bola" -, o orador avisou: "Não percebo nada de marketing". Para quem aqui vislumbrava uma centelha divina de integridade e franqueza, a "entrada à Petit" que se seguiu deitou por terra todas as palavras e utopias fabricadas com algodão 100%: "É uma empresa de mulheres mas que precisa de alguns homens, estas estão sempre a engravidar".

Em apenas meia hora, Pedro Ruiz, um dos donos da empresa Vivafit, conseguiu entre slides mal escritos articular frases e ideias tão elaboradas e complexas como "devem contratar mulheres para directores de marketing mas só quando entrarem na menopausa" ou, suprasumo da filosofia de tasco de menos cinco estrelas, "os homens só querem uma coisa e são as mulheres que lhes podem dar".

Numa época onde se fala recorrentemente de conceitos como "marketing directo" ou "marketing viral", o CEO da Vivafit conseguiu a incrível proeza de, perante uma plateia repleta, inventar um novo conceito: o de "marketing hara-kiri". Sejam bem-vindos ao MacDonald`s do mundo dos ginásios.

Nota: Pedro Ruiz discursou na 3ª Conferência de Marketing Directo organizada pela IFE.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Portugal reencontrado



Na passada sexta-feira, o ípsilon - pela escrita de João Bonifácio - lançou o alerta. Com origem numa esquisita flor em forma de caveira, há por aí uma nova e entusiasmante vaga musical que vai voltar a fazer do português uma língua musical de eleição. Depois de Variações, dos Heróis do Mar e dos GNR, é agora a vez de nomes como Ninivitas, Lacraus, Samuel Úria, Pontos Negros, João Coração, b fachada ou Tiago Guillul tomarem as rédeas da história lusitana, cantando sem vergonha o vocabulário materno de todos nós.

Aventurem-se então por um Portugal reencontrado, por gente que faz com que a língua de Camões volte a ser ouvida com puro deleite. Entrem, então, em naus de velas desfraldadas, navegando de ouvidos bem abertos rumo a um Oceano Myspace de perder de vista.

Ninivitas
Pontos Negros
Samuel Úria
Tiago Guillul
João Coração
Lacraus
b fachada

domingo, 23 de novembro de 2008

O Bosch que foi trocado por um Sparks



Do humor irlandês à violência extrema, "In Bruges" visona-se como um postal ilustrado em movimento, carregado de espectros, diabos, monstros e ... anões. Pena que, o último fôlego - ou os últimos vinte minutos -, tenha deixado de lado o intuito de pintar um Bosch, trocando-o pela escrita de um romance ao estilo do sensaboroso Sparks. Seja como for, saímos do cinema decididos a trocar Londres por Bruges na próxima aventura extra-fronteiras. Três em cinco.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O ano acaba mais cedo



A julgar por algumas publicações electrónicas, 2008 está prestes a fechar para balanço. É o caso da paste magazine.com, que já se chegou à frente com os 50 melhores discos do ano. Os lugares de honra vão para:

3. Vampire Weekend - Vampire Weekend
2. Sigur Rós - Med sud i eyrum vid spilum endalaust
1. She & Him - Volume One

Lista completa aqui.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Gélida independência



Nove anos depois da sua morte e cinquenta e dois após a atribuição do Nobel da Literatura, o escritor islandês Halldór Kiljan Laxness assiste das alturas à edição de um livro da sua autoria em território lusitano.

"Gente Independente", editado pela Cavalo de Ferro (1ª edição em 2007) é um épico sobre a luta pela independência, num mundo onde não há espaço para a clemência. Bjär­tur, a personagem principal, vive uma Odisseia pessoal, desconfiado do progresso, das cooperativas, dos estranhos, dos vizinhos, agarrado a uma vida de servidão embalado pela poesia de tempos antigos. Um livro inesquecível que nos transporta até uma Islândia no início do século, onde a superstição e a luta diária pela sobrevivência deixam pouco espaço para o sonho - uma história que século após século se vai repetindo. O Fusco deixa um pequeno excerto de um livro comovente, a que oferece 4,5 ovelhas num rebanho de 5.

"A história dos séculos neste vale é a história dum homem independente que luta de mãos vazias contra espectros sempre novos e de diferentes nomes. Às vezes o espectro é uma espécie de diabo divinal que amaldiçoa as suas terras. Às vezes, disfarçado de bruxa, parte os seus ossos. Às vezes, em forma de fantasma, endoidece os seus parentes. Às vezes, com a forma de um monstro, destrói os seus aposentos. E é, no entanto, eternamente o mesmo espectro que molesta o mesmo homem, século após século."

Das bolachas ao caviar



Depois de se terem enchido de bolachas no regresso à montanha das guloseimas, os TV on the Radio sentaram-se comodamente no sofá, acenderam a lareira e abriram uma lata de caviar de qualidade certificada.

Quem viu as imagens do tsunami de proporções épicas baptizado como "Return to the Cookie Mountain" esperava certamente um sucessor carregado de espírito apocalíptico, géneros musicais difusos, a repetição pela certa de uma fórmula bem sucedida. Puro engano. "Dear Science" é um disco cerebral, empolgante, onde o experimentalismo deu lugar a uma claridade radiosa. Por vezes, a ciência tem destas coisas. Deixa de ser exacta e torna-se num ser dado ao sentimentalismo. Quatro televisões em cinco para os rapazes.

Estranha intimidade



Com "Silent Alarm", os Bloc Party dominaram emissões televisivas e radiofónicas, transformaram-se em banda sonora de spots publicitários e ganharam honras de toques de telemóvel. A adrenalina parecia inesgotável e a correr desalmadamente no sangue da rapaziada, até que demos de caras com "A Weekend in the City", um disco onde os britânicos curavam a ressaca dos tempos de excesso e mediatismo. Apesar de tudo, tomámos a difícil decisão de os perdoar. Porém, com "Intimacy" (2008), os Bloc Party mostram que a festa morreu há muito, e que esta será uma boa altura para arrumar os instrumentos, voltar a casa e pensar numa profissão menos dada a rasgos criativos. Com esta noção de intimidade, um aperto de mão (em cinco) já me parece um gesto demasiado pessoal. Para pequenos excertos aventurem-se por aqui.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Magia a bordo de um táxi preto



Outra gravação com que nos deparámos foi a de Jens Lekman, o bardo sueco, a tocar "Black cab" a bordo de um táxi preto. "Now I've hard all those stories about black cabs and the way they drive / that if you take a ride with them you may not come back alive / They might be psycho killers but tonight I really don't care / So I said turn up the music take me home, take me anywhere." Mas ninguém traz este rapaz a Portugal? Sigam este táxi.

Praia encantada



Foi em nome deles que o Fusco voltou à vida activa. Como retribuição sonhada, os Beach House lançaram o videoclip oficial para o seu novo, surpreendente e apaixonante single intitulado "Used to be". Quanto a nós, mostramos uma versão tocada numa praia algures em Sidney. Ouçam e apaixonem-se.


Beach House: Used to Be from shoottheplayer on Vimeo.

Anjo em modo repeat



Com o livro "A Sombra do Vento", Carlos Ruiz Zafón conseguiu alcançar o estrelato e o seu primeiro best seller. Este ano, com edição portuguesa assegurada pela Dom Quixote, surge o novo "O Jogo do Anjo".

O livro é uma espécie de falsa sequela, já que os temas, locais e pensamentos do seu predecessor continuam a habitar cada uma das páginas: a decrépita Barcelona, as casas assombradas, os fantasmas não enterrados, o Cemitério dos Livros Esquecidos, a literatura como salvação e maldição.

Como aconteceu com o livro anterior, li "O Jogo do Anjo" de um sopro, impelido pela vontade de chegar à última página e conhecer o destino de um narrador magoado. Não causará a mesma surpresa e encanto de "A Sombra do Vento", mas não deixa de ser um livro que se lê com um tenebroso deleite. Três terços em cinco.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Bom é na caminha



Não será um dos discos maiores de 2008 mas, de qualquer forma, o Fusco saúda o regresso de uma das mais improváveis duplas musicais: Isobel Campbell, em tempos diva dos Belle & Sebastian e Mark Lanegan, um carrancudo rapaz que tem mantido um registo discográfico respeitável desde o fim de uma aventura chamada Screaming Trees.

É certo que o efeito surpresa de "Ballad Of The Broken Seas" (2006) se perdeu, mas "Sunday at Devil Dirt" acaba por se revelar uma banda-sonora de eleição para a chegada traiçoeira do Inverno. Canções para escutar, de preferência, na caminha. Três cobertores em cinco. Para pequenos excertos sigam por aqui.

Despertar da fantasia em Beirute



Owen Pallett, corpo, cérebro e voz do projecto Final Fantasy, juntou-se aos Beirut para a edição de dois EP`s. "Spectrum, 14th Century", o primeiro, está disponível para compra. Quanto a "Blue Imelda", um dos cinco temas que o compõem, já teve direito a videoclip. Sigam por aqui.

Judeus de prata no médio oriente



Apesar dos Silver Jews nos oferecerem discos de eleição desde 1992, mantiveram sempre uma clara decisão de não dar qualquer concerto ao vivo. Porém, em 2005, o vocalista e mentor David Berman converteu-se apaixonadamente ao judaísmo, e a banda lançou-se, um ano mais tarde, numa digressão à escala mundial.

O realizador Michael Tully seguiu os Silver Jews na sua muito pessoal digressão ao Médio Oriente, onde deram dois concertos em Tel Aviv e um salto a Jerusalém. Para ver na Pitchfork TV até ao dia 20 deste mês.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Regresso em nome da praia



Depois de uma viagem pelo mundo virtual, tentando encontrar desabafos, lamentos e divagações sentidas sobre os concertos dos Beach House - em Portalegre e em Lisboa -, deparei-me com o vazio absoluto. Incapaz de aceitar um tal estado de coisas, e dado que fiz à volta de 400 quilómetros para os ver num Alentejo cada vez mais esplendoroso, decidi regressar à vida postiana.

Alex Scally, guitarrista, baixista, teclista, programador e génio da lâmpada mágica enterrada na areia, deixou o aviso. A partir do momento em que os Beach House começassem a sua actuação, seríamos assaltados pelas recordações de infância, fossem elas dolorosas, sorridentes, vestidas de preto e branco ou pintadas de todas as cores.

Com "Devotion" a servir de estação principal, e efectuando paragens em vários dos apeadeiros de "Beach House", a banda de Baltimore ofereceu, a quem marcou presença no Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre (a 15/11/2008), um concerto íntimo, intenso, único e que, como um doce veneno, se entranhou na pele e passou a fazer parte da circulação sanguínea.

A voz de Victoria Legrand, por entre uma guitarra em slide, uma caixa de ritmos com sentido de profecia, teclados religiosos e uma bateria pronta a seguir a palavra divina até ao fim do mundo, viajava entre a doçura e o assombro, procurando alcançar a redenção.

Diria que este foi um dos concertos que mudou a minha vida. Que, ao mesmo tempo que atravessava o túnel e vislumbrava as descidas pelo escorrega, as viagens no carrossel da feira, as primeiras paixões frustradas e o pesadelo da acne juvenil, me vi lançado para o futuro com a energia de uma criança, pronto a deitar-me num areal de sonho para construir um castelo de areia capaz de tocar as nuvens. Comovente e sublime.

"Heart of Chambers" (video)
"Master of None" (video)
"Gila" (video)
"You came to me" (video)

P.S.: Destaque para a actuação de Jana Hunter que, com a ajuda do elenco Beach House e uma transmutação da vida para o palco, ofereceu um concerto de grande nível.